18 maio 2016

Olha pra mim

Como não corar o rosto quando me sinto olhado. O ser humano é social e sociável por natureza e gosta de reconhecer e ser reconhecido. Uns, por esperteza, usam-se de atributos que não detém, outros, enganadores em si, iludem a realidade vivida.

Quando faço o que já tenho o que fazer, lá atrás já ensinaram, não faço nada digno de honra ou elogio, ou olhar. Já quando vou além, de minhas obrigações corriqueiras, de meu eu comum, daquilo que recebo para fazer, seja pecuniário ou sentimental, daí sou digno do olhar aprovador.

A lógica da sociedade, sempre inversa, deve-se a ilusão humana de que fazemos demais ou tudo dentro de nosso contrato social. Jogar o lixo no lixo me torna herói, já separá-lo para reciclagem e total aproveitamento em benefício ao meio ambiente, vilão para uns, exagerado para outros, um Marvel ou DC para meu eu.

Nosso senso capitalista de benefícios por méritos nos incentivam à tendência quase absoluta de cortar o caminho. Quando morei no internato, sempre peguei o caminho mais curto, ainda que mais perigoso para o refeitório, com mato e pinguela (um tronco caído de um lado ao outro do rio). E se houvesse competição formal, pois a informal é intrínseco a nosso ser, tentaria o caminho mais curto novamente.

O ditado de que fins justificam meios derrubam presidentes, monarcas a diretores de escolas públicas e presidentes de bairro. O desconhecimento daquele em que eu batia às costas, quando pecados ou imoralidades tornam-se públicas é a regra para quem, como eu e você, tememos falar a verdade ou deixá-la livre em nossos pensamentos.

Olha pra mim, é o símbolo do filho que quer reconhecimento paterno/materno, do funcionário para seu patrão, do súdito para seu rei, do fiel para seu Deus/deus.

A sedução de ser reconhecido é vencida por poucos. No alto do cume, a proposta de reinar lacrimeja os olhos e acelera o coração. Para que sacrificar-me, se posso pegar o caminho mais curto e, assim, olharem para mim.

Quando deixamos, ainda que por mínimos momentos, de exigir que o outro, sejam quem ou o que for, olhe para nós, e nós olhamos para si, para dentro, algo diferente acontece. E não é o mesmo efeito para todos, eu diria que o efeito é individual de cada um. Como dizem, sei lá quem, cada um sabe a alegria e a dor de ser, você/eu mesmo.

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