09 outubro 2015

A profissionalização (des) necessária.

Minha superficialidade de conhecimento é de matar. Sinto-me culpado por não ler mais, estudar mais, dedicar-me mais. Ao mesmo tempo em que invisto meu free time do dia na capacitação educacional e profissionalizante, não sinto os efeitos concomitantes chamados de resultados. Não como minha mente imaginaria. Talvez eu me fantasie em mais ou menos do que seja, vai saber.

Ouvi, meses atrás, um conselho, pedido por mim, de alguém que chegou onde queria, profissionalmente falando, que o ideal era pautar a teoria pela prática inicial. Diante da escassez de recursos práticos que me levem onde quero, não absorvi o conselho como deveria.

Onde quero estar é conceito afetado pelas nuances de oportunidade e conveniência. Dado o berço em que se vive, percebe-se (com exceções raríssimas) como a semente germinará e que fruto dará.

A incompletude de meu ser se alastra dentro de mim, mesmo tendo que me conter, não me contenho. Não sou incrementalista, aquele que quer resolver tudo consensualmente, preservando o passado e que raramente resolve ou se posiciona por algo, mas sim, sou racional, arriscando-me em saltos que podem resultar em mudanças positivas ou negativas, afinal, quem não arrisca, não petisca. O tempo tem apaziguado a natureza, começo a perceber pequenos e raros traços de maturidade que me fazem pensar antes de agir.

No âmbito profissional, em que o capitalismo segrega as pessoas, empobrecendo e matando a maioria, e os governos utilizam-se de métodos regulatórios de mentirinha, é triste ver que os empregos estão chegando ao fim. Há quem defenda o colapso do capitalismo neste século, pois com ricos mais ricos e pobres mais pobres, um dia a situação estoura.

Meu papel neste mundo, indefinido pelo universo de definições conflitantes em meu ser, é cada dia mais retraído e difuso, diante da impossibilidade de dar uma de Cristo patrolando os fariseus e escribas, que não vão ao céu e nem deixam ninguém ir; tampouco de diabo, fazendo acordos escusos com pactos estranhos e de consequências incalculáveis.

A ansiedade generalizada de nosso mundo, em que quem não está bem quer estar e que está quer mais ainda, é parente consanguíneo das me-dá, me-dá, sanguessugas filhas relatadas a mais de 4 mil anos atrás.

Entristeço-me pela tendência que leva a humanidade ao seu próprio fim, sem precisar nem que Deus, Jesus ou Maomé voltem; tampouco que o diabo coloque fogo. Basta ver como tratamos a vida, se as casas são limpas, existem locais na cidade bem sujos; se a água da torneira é limpa, a água dos rios tá imunda; se o bueiro tá entupido, a culpa é do Poder Público, jamais minha que jogo lixo no chão; se os lixões estão lotados, devido a não reciclarmos vasilhas que demorarão mais que nossa vida para serem absorvidas pela terra; dentre outras situações que nos levam do início ao fim da estória, again and again, para que o ciclo de complete e torne a se repetir.

Somos kamikazes (nada dos diferencia deles e nossa natureza a eles se iguala), doidos querendo tacar uma bombinha aqui e ali, com os mais variados sabores, seja da bomba que mata, seja da que me privilegia, seja da que lesiona, seja da que não me prejudica, seja da que me mantém, seja da que me alça.

Nesse mundo cruel, composto por nós, pessoas cruéis, é preciso cautela para manter a vida, como no mundo animal (somos animais e fazemos parte deste mundo, mesmo não tirando preciosas lições dos safáris).

A vida é curta, o período de trabalho e estudos é longo, e de passo em passo precisamos deixar nossas vaidades de lado e investir tempo (e $) em capacitações, faculdades, cursos e práticas profissionalizantes (tudo é vaidade, não nos esqueçamos, tudo é vaidade!).






30 junho 2015

Redução da maioridade

O que fazer?

Quando havia briga a vingança privada era desmedida, matava-se na briga um, a família do outro matava cinco membros da outra família e isso não tinha fim.

Quando estipulou-se a proporcionalidade, o olho tirado era compensado pelo olho tirado, era olho por olho, dente por dente, lesão por lesão.

Na idade média a morte era a pena capital e as masmorras e prisões locais temporários até a espera do corte da cabeça.

Com as prisões sem morte, a cadeia era para vida toda, em condições insalubres e desumanas (eu diria inabitáveis, afinal, sequer animais viveriam muito tempo ali).

Com a segunda guerra a prisão de judeus era para o trabalho forçado e aniquilação de um povo, por puro prazer.

Com a criação da Organização das Nações Unidas, pós 1945, as penas não poderiam ser cruéis, degradantes, de trabalhos forçados, nem de morte.

No Brasil pós Lei de Execução Penal, 1984, o aumento do número de apenados é proporcionalmente a população do país, o maior do mundo e 4° por número de presos.

O país da educação, que não assume a educação como papel primordial de modelagem do ser humano, agora quer prender pessoas mais jovens, protegidas pelo ECA que previa apenas internação compulsória de até 3 anos.

O que fazer com jovens que assaltam, matam,estupram e queimam gente?

Eu não sei a resposta fora da expressão 'educação'.

A natureza humana de todos, e disso nem todos aceitam, é tendente ao agir vingativo, a violência.

O que nos torna sociáveis, cumpridores do pacto social?

A educação.

O que nos faz devolver o que não é nosso e não mexer no que é dos outros?

A educação.

O que nos faz não querer agredir ao próximo quando este tem uma vida boa em detrimento da minha merda de vida?

A educação.

O que faz com que jovens não saiam estuprando gente, ou queimando mendigos por diversão?

A educação.

E se a educação não der certo?

Em países em que houve investimento e preocupação social com a educação, o nível de violência e conseguinte de número de presos é mínimo, sobrando vagas.

E se não der certo?

Ai talvez diminuir a maioridade poderia ser uma solução?

Como tentar a prisionização em detrimento de políticas educadoras?

O clamor pela redução vai ser ouvido, isso é realidade.

Mas lá na frente, veremos que prender, apenas por prender, não adiantará.

17 março 2015

O COMPRIMENTO DAS CADEIAS

Roubado da Bacia das Almas

Agora entendo um pouco mais em como valorizamos o produto estrangeiro e barato, em detrimento dos nossos.

O comprimento das cadeias

Paulo Brabo, 6 de julho de 2014
A origem do fundamentalismo de mercado, sua base intelectual, é a noção de que não haverá jamais consequências não calculadas para as coisas porque, como em tudo se coloca um preço, você crê que está pagando por todas as consequências das suas ações.
Sir Partha Dasgupta, How To Price a Forest and Other Economics Problems
A sin­gu­la­ri­dade do modo de vida que tes­te­mu­nhei em Urubici no final da década de 1970 pode ser arti­cu­lada de diversas formas. A com­pa­ra­ção com Shangri-​​Lá de Horizonte Perdido pode ser ine­vi­tá­vel, porque um obser­va­dor entende de imediato que o caráter excep­ci­o­nal dos dois lugares – o vale da ficção e o da minha expe­ri­ên­cia – deve-​​se, em boa medida, ao seu relativo isolamento.
Minha primeira e mais duradoura impressão sobre Urubici talvez tenha sido essa, a de que o lugar tinha sido poupado de alguma coisa que havia muito cla­ra­mente arruinado outros lugares; uma coisa que arrui­na­ria mesmo Urubici se encon­trasse ocasião de chegar até ali.
Um dos modos menos sen­ti­men­ta­lis­tas de articular a diferença é lembrar que a Urubici daquele tempo tinha sido poupada de um deter­mi­nado modelo econômico – um deter­mi­nado modo de ver e de perfazer o trajeto entre a produção e o consumo.
O Brasil da década de 1970 já operava com uma malha bastante complexa de produção e de dis­tri­bui­ção. Em contraste, as cadeias de produção e de dis­tri­bui­ção em Urubici eram rela­ti­va­mente curtas.
Uma cadeia curta é quando você come o frango que criou, ou que comprou do seu vizinho. Uma cadeia longa é quando você come o frango que nasceu num criadouro, foi engordado numa fazenda indus­trial, foi pro­ces­sado numa indústria e ficou arma­ze­nado em pelo menos um centro de dis­tri­bui­ção antes de ser posto à venda no seu super­mer­cado – sendo que cada uma dessas etapas ocorre, com toda a pro­ba­bi­li­dade, em lugares rela­ti­va­mente distantes de você e uns dos outros.
Uma cadeia admis­si­vel­mente curta é quando um cidadão de Urubici veste uma camiseta que foi produzida em Blumenau. Uma cadeia longa é quando a camiseta que você veste tem uma etiqueta em inglês e foi produzida no con­ti­nente asiático.
O capi­ta­lismo, espe­ci­al­mente em sua mani­fes­ta­ção tecno-​​industrial, tende a produzir cadeias de produção e de dis­tri­bui­ção cada vez mais longas e complexas. Não é que o capi­ta­lismo dê por princípio pre­fe­rên­cia a cadeias longas; são as ênfases capi­ta­lis­tas em pro­du­ti­vi­dade, espe­ci­a­li­za­ção e maxi­mi­za­ção dos lucros que acabam esti­mu­lando o alon­ga­mento das cadeias.
Sem nos darmos conta, patro­ci­na­mos cadeias de produção e de dis­tri­bui­ção que têm cada vez mais etapas, mais rami­fi­ca­ções, mais inter­me­diá­rios e mais depen­dên­cias. Nos casos de produtos de alta tec­no­lo­gia, essas cadeias acabam se des­do­brando em sistemas de uma com­ple­xi­dade bestial.
Um dis­po­si­tivo que teve o seu design esta­be­le­cido nos Estados Unidos têm os seus com­po­nen­tes pro­du­zi­dos em vinte países e três con­ti­nen­tes. Essa multidão de com­po­nen­tes mul­ti­na­ci­o­nais descobre modo de se reunir magi­ca­mente numa única fábrica da China, nas mãos de um único e anônimo ex-​​camponês, antes de atra­ves­sar montanhas e mares e encontrar o caminho de uma loja de shopping em São Paulo ou de um super­mer­cado de bairro em Campina Grande – tudo para que você tenha como jogar Candy Crush na sua próxima ida ao banheiro.

As pena­li­za­ções

À primeira vista as longas cadeias parecem não fazer outra coisa que premiar o con­su­mi­dor, porque efetuam a sua mágica de modo a pul­ve­ri­zar custos que a economia local não poderia ou não se disporia a cobrir. O resultado são preços menores para produtos que viajaram mais. Se quiser (e quem poderia resistir?) você pode pagar menos por um manteiga francesa, um peixe defumado canadense ou uma camiseta chinesa do que por produtos similares que foram manu­fa­tu­ra­dos a metros de você.
Natu­ral­mente esses milagres têm os seus custos, mas o sistema tem meca­nis­mos – a própria extensão das cadeias, a atração dos preços mais baixos – que trabalham para mantê-​​los ocultos.
Para entender os custos locais desse modelo econômico é preciso a dádiva de uma pers­pec­tiva que é cada vez mais rara. A mim essa pers­pec­tiva foi oferecida por Urubici naquelas minhas primeiras viagens a Santa Catarina.
Grande parte do que achei de admirável no modo de vida do vale só era possível porque (e só per­ma­ne­ceu sendo possível enquanto) sua sociedade não havia sido ainda seduzida e pena­li­zada pelo sistema de cadeias longas.
Permita-​​me examinar alguns aspectos dessas penalizações.
► As longas cadeias minam a inde­pen­dên­cia e a autonomia
Os uru­bi­ci­en­ses que conheci no fim da década de 1970 tinham um senso de autonomia e de sufi­ci­ên­cia que chegava a intimidar. Não me lembro de ter tido medo de uma pessoa boa, um medo que era também uma espécie de admiração, antes de conhecer aqueles homens e mulheres. Aquela era gente livre, como gente ide­al­mente deveria ser – e como eu não tinha visto ninguém na cidade con­se­guindo permanecer.
Meus amigos de Urubici tinham motivo para parecer livres e autônomos: de fato eram. As cadeias curtas de produção e de dis­tri­bui­ção são brasões de autonomia da sociedade local, e nisso capacitam os seus habi­tan­tes em modos numerosos demais para contar.
São também parte essencial daquilo que se con­ven­ci­o­nou chamar de sus­ten­ta­bi­li­dade – o projeto de manter vivo e viável um deter­mi­nado modo de vida.
Seduzida pela aparente con­ve­ni­ên­cia das cadeias longas, a sociedade perde de vista o que deveria parecer óbvio: que as cadeias longas tornam inviáveis as cadeias locais.
O produtor local que perde seus com­pra­do­res perde não só o seu sustento: perde também a opor­tu­ni­dade de expor ao mundo, a si mesmo e a seus des­cen­den­tes a dignidade do seu modo de vida.
► As longas cadeias inibem a cultura local e tendem a riscá-​​la do mapa
Uma cultura local é um ecos­sis­tema de modos de fazer, um conjunto de feições desenhado pela história e pela geografia. Tradições tornam-​​se tradições porque uma sociedade decide cole­ti­va­mente, no espaço de gerações, que um deter­mi­nado conjunto de modos de fazer serve mais do que qualquer outra alter­na­tiva para representá-​​la diante de si mesma e distingui-​​la diante das outras.
Nenhuma sociedade da história existiu com­ple­ta­mente isolada da influên­cia das outras, mas antes do nosso tempo nenhuma sociedade teve que competir com uma cultura global.
A com­pe­ti­ção das longas cadeias de produção e de dis­tri­bui­ção invi­a­bi­liza a cultura local porque esta­be­lece como inviável o estrato mais fun­da­men­tal dos seus modos de fazer, aquele da subsistência.
Quando no mercado local introduzem-​​se produtos sub­si­di­a­dos pelo com­pri­mento das suas cadeias, o pequeno produtor (ou o pequeno artesão) acaba enten­dendo que não pode continuar sendo pequeno e produtor. Ele (ou pelo menos seus filhos) serão com­pe­li­dos a abandonar os antigos modos de fazer. Via de regra darão ouvidos ao apelo universal para entrar no mercado, num cenário urbano ou pelo menos numa fábrica: querendo dizer, passarão a vender a sua mão de obra em vez da sua produção.
Serão empre­ga­dos.
É uma transição tão radical que acaba dizimando no seu lastro todas as tradições e toda a cultura associada ao modo de vida anterior.
► As longas cadeias ocultam os custos locais das longas cadeias
Quando compra um artigo de 1,99 você via de regra não o faz por um ódio deli­be­rado à economia local. Na verdade, deter­mi­na­dos preços são tão excep­ci­o­nais que geram a impressão de que ninguém está sendo pre­ju­di­cado por eles; parecem existir lite­ral­mente fora da competição.
O fato é que nada no planeta custa 1,99, a não ser que alguém fora do seu campo de visão esteja pagando a diferença. Essa trans­fe­rên­cia de custos é o mecanismo mais essencial do sucesso das longas cadeias (ver abaixo), mas não é o único.
Quando a longa cadeia lhe oferece um produto a um preço muito inferior ao de um similar produzido local­mente, você se sente tentado a pensar que apenas os de fora estão sub­si­di­ando aquele preço.
A mate­má­tica, natu­ral­mente, é outra. Num sentido impor­tante, os produtos das longas cadeias são baratos porque não estão dando nada à economia local, existindo à parte e sem qualquer com­pro­misso com ela. Via de regra, o custo das longas cadeias para a economia local é a economia local.
► As longas cadeias ocultam os custos globais das longas cadeias
Quando a produção é local, entra em ação um mecanismo natural de contenção e de controle. Como a manu­fa­tura e o consumo acontecem dentro das suas fron­tei­ras, a comu­ni­dade pode avaliar dire­ta­mente até que ponto os recursos locais estão sendo abusados, até que ponto a paisagem local está sendo des­ca­rac­te­ri­zada e até que ponto os tra­ba­lha­do­res locais estão sendo explo­ra­dos no processo.
As cadeias longas de produção ter­cei­ri­zam essas res­pon­sa­bi­li­da­des e ocultam cada um desses custos. Você compra o produto final, mas não tem como retraçar a partir dele as comu­ni­da­des que foram obli­te­ra­das pela nova hidre­lé­trica, as casas cen­te­ná­rias que foram aplai­na­das em esta­ci­o­na­men­tos, as espécies que foram desa­lo­ja­das ou extintas pelo avanço dos parques indus­tri­ais, os reti­ran­tes que foram arre­ba­nha­dos de seu modo de vida original a uma linha de produção confinada e insalubre.
Ter­cei­ri­zar res­pon­sa­bi­li­da­des raramente é uma boa ideia. Via de regra a extensão dos danos só aflora quando é tarde demais para corrigi-​​los – ocasião em que todos os envol­vi­dos poderão afirmar, sem mentir muito, que não tinham ideia clara do que estava acontecendo.
Um exemplo do modo como as longas cadeias de produção e de dis­tri­bui­ção ocultam os custos globais que as sustentam é o caso da carne bovina.
Não é sem razão que na maior parte da história, em todas as geo­gra­fias, as pessoas comiam carne apenas oca­si­o­nal­mente, espe­ci­al­mente fresca. Criar um animal de corte requer con­si­de­ra­vel­mente mais recursos do que outras alter­na­ti­vas ali­men­ta­res. Com os 15.500 litros de água que são neces­sá­rios para produzir um quilo de carne bovina se produzem 12 quilos de trigo ou 118 quilos de cenoura.
O capi­ta­lismo se faz de louco e opera como se comer carne fosse algo natural como respirar ou beber água, mas a natureza opera de modo muito diverso. O que o sistema esconde é que é preciso queimar uma quan­ti­dade enorme de recursos para sustentar farsa tão escabrosa.
Se é tão caro produzir carne, de onde um cara nada rico como você tira recursos para comê-​​la com tanta frequên­cia? O seu bife está sendo sub­si­di­ado, em parte pelo governo, em parte pelo planeta.
As longas cadeias mantém fora do seu campo de visão o acre de floresta amazônica que é derrubado por segundo para dar lugar à criação de gado ou à produção de grãos des­ti­na­dos a alimentar essa indústria. Um quilo de alcatra custa muito mais do que você poderia comprar, mas a extinção irre­ver­sí­vel das espécies e a obli­te­ra­ção sis­te­má­tica do pulmão do mundo têm feito a cortesia de pagar a diferença.
Grande parte do planeta está passando fome, mas para a sua con­ve­ni­ên­cia as longas cadeias ocultam que os recursos que sub­si­di­a­ram o seu churrasco poderiam ter sido empre­ga­dos para saciar uma pequena multidão. Você come o seu McLanche feliz sem ter de pesar que mais de 40% da produção global de soja, trigo, centeio, aveia e milho são usados para alimentar não seres humanos, mas gado de corte.
► As longas cadeias ocultam os custos humanos das longas cadeias
Como estamos falando de sistemas complexos, com rami­fi­ca­ções em diversos con­ti­nen­tes, países e for­ne­ce­do­res, é por definição impos­sí­vel para o con­su­mi­dor acom­pa­nhar as eventuais injus­ti­ças e atro­ci­da­des sociais patro­ci­na­das pelas longas cadeias do capi­ta­lismo ao longo do trajeto.
Você compra o seu smartfone, mas não precisa ficar sabendo que as condições de trabalho em que ele foi montado numa fábrica chinesa são tão desumanas que as janelas são gradeadas e os prédios providos de redes de segurança, na tentativa de conter o avanço dos suicídios.
Você não precisa tes­te­mu­nhar o drama das famílias desa­lo­ja­das, das comu­ni­da­des e culturas riscadas do mapa, de gente em nada diferente de você roubada da sua dignidade.
Diminuir os custos e maximizar os lucros é o mantra do capital. Os batedores do capi­ta­lismo vivem sondando o planeta em busca da mão de obra mais barata dis­po­ní­vel, de modo a explorá-​​la nas suas longas cadeias.
Até recen­te­mente, por exemplo, a China era o grande centro de manu­fa­tura das roupas con­su­mi­das no ocidente. Esse eixo vem se trans­fe­rindo para Ban­gla­desh, onde as grifes encon­tra­ram mão de obra disposta a trabalhar por menos, com menos garantias e em condições de trabalho mais insa­lu­bres.
As grandes cor­po­ra­ções não mexem nesse tabuleiro para perder. Elas não repassam para você um desconto que já não tenha sido pago por outro ser humano. A regra geral é esta: quanto menor o preço final de um produto de longa cadeia, mais brutais você pode concluir que foram as condições da sua manufatura.
► As longas cadeias separam o con­su­mi­dor do custo ver­da­deiro do que está consumindo
“O capi­ta­lismo pre­da­tó­rio”, diz-​​me o ativista Robert David Steele, “baseia-​​se na pri­va­ti­za­ção do lucro e na exter­na­li­za­ção dos custos. Ele é uma extensão do con­fi­na­mento dos recursos comuns, das clausuras, e é acom­pa­nhado pela cri­mi­na­li­za­ção dos direitos e costumes comuns que valiam anteriormente”.
O que Steele chama de exter­na­li­za­ção dos custos é a própria essência da longa cadeia de produção e dis­tri­bui­ção. O capi­ta­lismo pre­da­tó­rio anda em derredor buscando recursos naturais e mão de obra baratos que possa tragar, não importa em que lugar do mundo.
Uma das con­sequên­cias desse modo operação é que ele aliena a sociedade local do ver­da­deiro custo dos produtos que consome. Tendo sido exter­na­li­za­dos, os custos perderam toda relação com o preço final, e fica muito difícil estimá-​​los. Steele:
Precisamos é de um sistema que preste contas integralmente de todos os custos. Por exemplo, meu colega J Z Liszkiewicz calculou que uma camiseta branca de algodão encerra cerca de 570 galões de água e entre 11 e 29 galões de combustível, bem como um bom número de emissões e toxinas, incluindo pesticidas, vapores de diesel, metais pesados e outros compostos voláteis – e comumente envolve ainda trabalho infantil. Pesar esses custos e seu impacto social, humano e ambiental tem implicações para o modo como devemos organizar a produção e o consumo que diferem em muito do presente capitalismo predatório.
► As longas cadeias roubam a pers­pec­tiva – do que está acon­te­cendo e do que pode ser feito
Como resultado do men­ci­o­nado acima, todas as partes envol­vi­das são roubadas de pers­pec­tiva: uma visão clara e global das con­sequên­cias do que estão fazendo.
As soci­e­da­des locais por certo não têm essa pers­pec­tiva. O sistema colocou-​​as num ponto cego, e espera-​​se que se bene­fi­ciem pas­si­va­mente do sistema de longas cadeias sem ter que entender o que envolvem. A única atitude não-​​passiva da sociedade local deve ser sua con­tri­bui­ção ativa para a manu­ten­ção de outras longas cadeias – con­tri­bui­ção de cujos custos as demais soci­e­da­des per­ma­ne­ce­rão igno­ran­tes, e assim por diante.
Os governos e cor­po­ra­ções por certo não têm essa pers­pec­tiva. Sua eficácia como ins­ti­tui­ções depende de ignorarem e passarem por cima dos preços pagos pelas soci­e­da­des locais para o avanço de sua “causa maior”. Quando toda a Amazônia for um esta­ci­o­na­mento estarão ainda recusando-​​se a admitir que alguma coisa foi perdida.
Num sistema em que ninguém sabe exa­ta­mente o que está acon­te­cendo, em que ninguém sabe o ver­da­deiro custo de nada (quem pode ver­da­dei­ra­mente estimar o custo de um acre de mata derrubado por segundo?), ninguém se sente res­pon­sá­vel e ninguém será chamado a prestar contas, a não ser que todos sejam.
Sistemas complexos sem espaço para res­pon­sa­bi­li­dade e prestação de contas são um convite ao desastre. O desastre não é conhecido por recusar convites dessa natureza.
► As longas cadeias se tornam cadeias: o capi­ta­lismo é um sistema do qual ninguém consegue sair
Na Urubici do final da década de 1970, com seu regime de cadeias curtas, meus amigos conheciam uma liberdade que nos nossos dias tornou-​​se pra­ti­ca­mente impos­sí­vel de exercer.
Aqueles caras extraíam o seu sustento da terra (e pare um minuto para sentir quão século XIII soa essa ideia lida na telinha do seu smartfone). Não arren­da­vam a sua força de trabalho para terceiros, mas empregavam-​​na para si mesmos. Não eram de modo algum soci­a­lis­tas, mas sub­sis­tiam à parte do mercado.
E, das into­le­rân­cias do fun­da­men­ta­lismo de mercado, esta é a primeira: o capi­ta­lismo não tolera que alguma coisa exista à parte do mercado. À parte do mercado ninguém deve ter permissão para sentir que existe.
O capi­ta­lismo cor­po­ra­tista apropriou-​​se e reo­ri­en­tou todos os aspectos da cultura de modo a reforçar esse único dogma. É por isso que os filhos de meus amigos de Urubici trocaram aquele modo de vida por modos urbanos em outras cidades: para entrarem no mercado – porque quem não está no mercado não deve sentir que existe. É por isso que mandamos as crianças para a escola; não para que aprendam alguma coisa, mas para que aprendam a entrar no mercado – porque quem não está no mercado não deve sentir que existe. É por isso que as pessoas escrevem livros e pintam quadros, não para dizer alguma coisa ou para a glória da aventura humana, mas para vendê-​​los no mercado – porque quem não está no mercado não deve sentir que existe.
É por isso que neste mundo quem acontece de estar desem­pre­gado é compelido a sentir-​​se, de modo muito real, menos do que gente. A própria palavra faz questão de demarcá-​​lo. No regime capi­ta­lista um desem­pre­gado (que é, em termos estritos, uma pessoa livre) deve sentir que não tem emprego: não tem utilidade, não tem dignidade, não tem lugar, não tem valor.
Se existe ideologia mais perversa, ou sistema mais eficiente de mani­pu­la­ção, esses não acabarão subs­ti­tuindo o capi­ta­lismo. O capi­ta­lismo é que se mostrará pronto a incorporá-​​los.

Paulo Brabo



11 fevereiro 2015

Incompleto

Estive pensando nas últimas semanas sobre nossa incompletude. Muitas vezes temos tudo e temos a sensação ingrata e insana de que não temos nada.

Medimo-nos pela régua de nosso status social, esquecendo que a pobreza, a miséria, a falta de acesso aos bens mais básicos, é a regra deste mundo. Menos de 10% da população mundial detém mais de 90% de toda riqueza mundial.

Devemos mudar este mundo, ou se esforçar para fazê-lo? Partindo do pressuposto de que só temos este planeta e que ele tem recursos naturais finitos, nada do que fizermos vai mudar o que está posto.

Por outra banda, agir sem consciência de respeito para com este mundo, e as pessoas que nele convivem, pode sim vir a trazer consequencias de antecipação do fim, que é certo.

Temo estar virando um eremita, com meus conceitos pessoais que nem sempre são partilhados pelo vento. O temor maior do meu coração é de não ter a oportunidade de disseminar que o respeito  a dignidade humana pode ser uma opção através do amor, que contagia e apara as arestas da nossa natureza cheia de falhas.

Não somos completos mesmo tendo tudo, talvez sejamos mais completos não tendo nada, paradoxo que nos remete às bem-aventuranças de Jesus em seu reino de valores invertidos em relação aos valores deste mundo.

Felizes os pobres, os injustiçados, os perseguidos, os que nada tem, ousou gritar aos que ouviam o Rabi de Nazaré no chamado sermão da montanha.

A lição é que ter menos, ser menos, estar menos, nos leva ao resultado mais agradável, a de ainda hoje estar com o Crucificado e Ressurreto no paraíso.

Assim seja.