14 dezembro 2016

O fim do 16

Não viverei mais no ano 16.
No próximo talvez nem meus netos.

Não terei mais 16 anos de idade.

A vida tem andado a passos:

Mais seguros, menos ansiosos.

Mais rentáveis, menos prejudiciais.
Mais lúcido, menos bambo.
Mais estruturado, menos remendado.
Mais pensado, menos impulsionado.
Mais sopesado, menos imediatista.
Mais alicerçado, menos ganancioso.
Mais família criada, menos amigos forjados.

2016 foi mais um ano, que se foi.

E com o passar dos anos, cada ano passa mais rápido, menos devagar.

Resta-nos, diz a música, saber viver.

Diariamente, agradeço a Deus por tudo, peço Sua vontade, o perdão dos meus pecados e torço para ser livre do mal.

06 outubro 2016

Nubladezas

Em dias cada vez mais quentes, a chuva se aponta no infinito e limpo céu azul. Com ela seu cheiro, seu vento, seu acalento. Saio da caixinha em que me escondo para cheirá-la mais uma vez, sentir o gotejar frio e refrescante de seu contato.

As plantas mortas ressuscitam, sem cultos religiosos ou líderes charlatões. Os pássaros cantam com mais vigor, embora molhados pela pouca proteção que as folhas lhes proporcionam.

O trânsito piora, quem saberia dirigir em cidade chuvosa, tendo 350 dias anuais de sol a pico. A energia elétrica também dá sua pausa, como conflitaria com as imponentes árvores plantadas nas calçadas e as indelicadas correntezas de água formadas.

O céu acinzentado traz nostalgia, certezas de que bons ventos estão a soprar, ainda que de outro modo a saudade dos dias e horas mais calorentos aperte o coração.

A crise vem com as nuvens carregadas. Chuva de verão não se confunde com polarização congelante de trevas ininterruptas. O cenário é caótico, pois não se pensa além de si e aquém.

Não é importante dar destinação justa ao lixo produzido, a chuva irá levar para longe.

Não é importante tratar o esgoto gerado, o rio levará minhas fezes e excrementos.

Não é importante que todos comam dignamente, meu salário, ainda que levemente atrasado, cai na conta todo mês.

Não é importante que eu desempenhe meu trabalho para que sou pago, posso interromper a glória alheia.

Não é importante que futuras gerações existam, enfim, se só a minha viver, foda-se a próxima.

E acerca dos temas mais variados estamos amarrados. Não sou eu a encarar tais temas polêmicos, como poderia atirar pedras em outros se o pecado habita em mim. Onde fui predestinado a nascer e viver isso poderia ser motivo de morte, e eu gosto da vida e pretendo exercê-la até enquanto o criador assim quiser.

De fato, se me for permitido e assim eu tiver condições, farei do jeito que entendo certo. Se existe algo neste mundo chamado planeta Terra em que os humanos se similarizam é nisto, cada um faz o que acha certo para si e para os seus.



24 agosto 2016

Em campanha

Sem atrapalhar nossas noites de prazer, nossos candidatos ainda nos prometem fazer de tudo e mais um pouco. A maioria não sabe das obrigações inerentes a receitas e despesas, consumo sustentável, licitações e contratações escritas, pressupostos dos mais básicos ao gestor público.

Por aqui não diferente dai, tem os grupos fechados ansiosos pelos cargos em comissão, os atuais que querem não perder a boquinha e os indivíduos individuais, os quais pregam que sozinhos salvarão a comunidade.

As panelas religiosas apoiam os seus, escolhidos entre si e avalizados por suas pretensas divindades. Os cósmicos e maçons em secreto também apoiam a si próprios, num círculo que ninguém sabe e ninguém viu, a não ser por três ridículos pontinhos que os identificam.

Minha campanha é menor, para outras coisas, mas também relacionadas a egoísmos capitalistas e auto centralistas que fazem parte de mim e dos meus. Não, não me candidato a nada, já me disseram serem meus braços curtos, de fato o são. Os que tem braços maiores não abraçam a todos também, apenas os seus, como eu e todos nós.

Governar não deve ser fácil, pois depende dos outros, em tudo. Ninguém governa nada sem a força, o sangue, ou a amizade, ou o acordo, ou a ação, ou a omissão.

Em campanha os piores podem ser os melhores e os que melhor falam os que menos se preocupam com os demais, não há regras e tudo e todos podem ser surpresas. O exercício da religiosidade, assistencialismo e associativismo não define caráter nem competência.

O competente pode tornar-se ineficiente por não saber o esquema que leva à eficiência e o corrupto e ladrão pode ser eficiente e querido se tiver os caminhos e asseclas nos lugares certos e na hora certa.

A vida neste planeta é finita. Não adianta fazer campanha, ganhar e usurpar-se do que é alheio, mesmo que inocentado seja pelas malandragens existentes. Como diz minha vó, que ouvia da sua vó, aqui se faz, aqui se paga.

A governança, em seus conceitos contemporâneos, pressupõe ética, responsabilidade e transparência que o sistema em si ainda não absorveu. Ainda estamos na época em que 50 reais vale um voto. A fiscalização tenta coibir o que a cultura de um povo traz dentro de si.

A humanidade que nos tem, é aquela que nos estipula à infidelidade a tudo e todos, ainda mais se isto for obstáculo. É isso, a humanidade nos tem. Nossa campanha é o que somos. E que somos, senão desejos, sonhos, utopias e escorregadias condutas, que tanto escondemos dos outros, e de nós mesmos.
 

29 junho 2016

O terrorismo nosso de cada dia

Eventos recentes demonstram nossa bestialidade. Como humanidade, a grosso modo, ofendemos a quem nos tem ofendido e não perdoamos a quem nos oferece perdão. A natureza remete à grosseria, à violência, ao seu olho pelo olho perdido, a sua mão pela minha mão perdida.

E mais, somos gananciosos enquanto seres viventes. Territorialistas, eu diria. Como meu cachorro macho que mija em cada canto da casa onde coloca as patas e ainda na rua, por onde tiver urina, para deixar seu cheiro, sua marca, seu excremento, a fim de que os outros saibam que ele passou por ali e aquele espaço é seu.

O conceito de nação perpassa por isso, fechamos a cerca para dizer que aquele espaço de terra é nosso e de mais ninguém. Os ingleses, menos bobos dos humanos contemporâneos, já deliberaram pela saída de uma união continental, afinal, abrir as comportas para que outros se beneficiem do que eles plantaram, jamais.

A violência demonstrada em atos terroristas, em que muitos são mortos em nome de ideais religiosos ou ideológicos, também é pouco disso. Não aceitar o que o outro diz é difícil demais sem chegar ao homicídio resultado no genocídio. Acham, em inocência de vida, que exterminar grupos, etnias, nações, resolverá o problema que eles acham existir.

E é assim. E vai continuar a ser assim. Os ricos mais ricos, os pobres continuando na pobreza. E não há quem nos defenda, não nesta vida.  Pensar custa caro, anos a fio de escolas e mestres e ainda mais, quando o esclarecimento perpassa pelo combate à cultura ambiental primária.

O instinto de sobreviver, de espalhar o pólen e urina nos mais longínquos lugares, acentua a naturalidade. A rivalidade é do ser, e não do capitalismo ou socialismo ou comunismo. Não aceitamos o outro vencendo com menos méritos que a gente. Os que aceitam, sabem pouco tornar-se interlocutores de uma transição educacional necessária ao desenvolvimento humanos.

Quem sabe seríamos experimentos, divinos ou extraterrestres, tanto faz. O estágio de civilidade é tão pequeno que não conseguimos nos manter unidos. E justamente por isso pequenos grupos racham, quiçá as grandes nações. De norte a sul e leste a oeste cada qual é cada qual. Ainda me admiro que tenhamos evoluído, a ferro e fogo de poucos idealistas, muitos dos quais deram a vida em prol da respectiva causa, com uma vida social quase que mundial, o contrato social.

A linha de retrocesso e avanço é tênue. O risco do cenário imaginário e futurístico de madmax se concretizar tem a mesma porcentagem do cenário de eurobô.

Temo pela minha vida. Este é um mundo perigoso. Mas também temo calar-me quando o injusto inventa novas injustezas e o justo se flexibiliza aos jeitos burlatórios de normas postas. As normas são boas, mas como seus autores, encontram-se nelas brechas nas quais muitos se locupletam.

A oração, uns pelos outros, é medida ensinada pelo Rabi Nazareno, assim como pelas autoridades. Se dois milênios atrás o que é de César foi-nos ensinado a dar a César, quanto mais hoje dar a Deus o que é de Deus. O jeito quieto do mestre galileu de mostrar a revolução almejada pelos judeus demorou e demora até hoje. As guerras não acabaram e os jugos continuam sobre os pescoços da humanidade.

As respostas óbvias não existem, são meras abstrações de quem almeja lhe doutrinar e subjugar em sua própria colônia, ou da simplicidade de quem sequer sabe o que é, quem é e não detém capacidade para nenhum questionamento, apenas segue a manada.

Ah, o efeito manada, um puxa o berrante o todos seguem atrás. Somos assim. Permaneceremos assim. O senso crítico não nos livrará, apenas amenizará em atitudes não soberanas e não ditatoriais, o viver no mundo.






18 maio 2016

Olha pra mim

Como não corar o rosto quando me sinto olhado. O ser humano é social e sociável por natureza e gosta de reconhecer e ser reconhecido. Uns, por esperteza, usam-se de atributos que não detém, outros, enganadores em si, iludem a realidade vivida.

Quando faço o que já tenho o que fazer, lá atrás já ensinaram, não faço nada digno de honra ou elogio, ou olhar. Já quando vou além, de minhas obrigações corriqueiras, de meu eu comum, daquilo que recebo para fazer, seja pecuniário ou sentimental, daí sou digno do olhar aprovador.

A lógica da sociedade, sempre inversa, deve-se a ilusão humana de que fazemos demais ou tudo dentro de nosso contrato social. Jogar o lixo no lixo me torna herói, já separá-lo para reciclagem e total aproveitamento em benefício ao meio ambiente, vilão para uns, exagerado para outros, um Marvel ou DC para meu eu.

Nosso senso capitalista de benefícios por méritos nos incentivam à tendência quase absoluta de cortar o caminho. Quando morei no internato, sempre peguei o caminho mais curto, ainda que mais perigoso para o refeitório, com mato e pinguela (um tronco caído de um lado ao outro do rio). E se houvesse competição formal, pois a informal é intrínseco a nosso ser, tentaria o caminho mais curto novamente.

O ditado de que fins justificam meios derrubam presidentes, monarcas a diretores de escolas públicas e presidentes de bairro. O desconhecimento daquele em que eu batia às costas, quando pecados ou imoralidades tornam-se públicas é a regra para quem, como eu e você, tememos falar a verdade ou deixá-la livre em nossos pensamentos.

Olha pra mim, é o símbolo do filho que quer reconhecimento paterno/materno, do funcionário para seu patrão, do súdito para seu rei, do fiel para seu Deus/deus.

A sedução de ser reconhecido é vencida por poucos. No alto do cume, a proposta de reinar lacrimeja os olhos e acelera o coração. Para que sacrificar-me, se posso pegar o caminho mais curto e, assim, olharem para mim.

Quando deixamos, ainda que por mínimos momentos, de exigir que o outro, sejam quem ou o que for, olhe para nós, e nós olhamos para si, para dentro, algo diferente acontece. E não é o mesmo efeito para todos, eu diria que o efeito é individual de cada um. Como dizem, sei lá quem, cada um sabe a alegria e a dor de ser, você/eu mesmo.

09 fevereiro 2016

A festa pela crise

No meio do carnaval, a carne nada vale.
Os ânimos acirram, extravasam geral.
A bebida entorpece e a visão agradece.
O pênis endurece e as DSTs se apetece.
Ser moral é pequeno, o clima é quente.
Cada um no seu canto, se diverte ou não.
Religiosos se retiram, libertinos se atiram.
Em economia decadente, feriado nem se sente.
O preço das coisas aumenta, reinvidicar nem se tenta.
Viver é artigo de luxo, no país tropical.
Dever no débito é viver no crédito.
Pagar a conta no dia, quem diria.
Governo incentiva endividamento.
O contento é dever sem poder.
 Pagar pra quê, em 5 anos a dívida prescreve.
O nome limpa e o ciclo renova.
Ouvir sermão, uma ova.
O ser humano é assim.
Precisam de mim, disse o Rabi.
Mas ajuntar como galinha os pintinhos.
Até E'le sabia que não podia.
Em meio à nossa desvairia.
Salve-se quem puder.
Se o crédito der.
AFINAL
É fácil discursar.
Difícil é viver.
Ainda mais corretamente.
E o que é correto,
Até isso se transforma.
E de pessoa em pessoa se disforma.


06 janeiro 2016

Trilhos

Descarrilham

Guiam

Levam

Trazem

Unem

Separam

Seguem.




A decadência das manifestações de meu ser neste blog, ano a ano, não remetem à minha mudança de humor ou qualquer outra desculpa. Como as promessas de novo ano, prometo-me e comprometo-me a rabiscar só que não funciona bem na prática.

Com a economia tendente a esvaziar os empregos, reduzindo-os ao fim; com o capitalismo sujo de poucos ricos e todo o resto pobre;  com a política seletiva e nada democrática que continuam a atender interesses burgueses; com a miserabilidade social, educacional e o retorno da guerra constante anterior ao Contrato Social; dentre outras nuances que no dia a dia do noticiário mundial se propaga, só penso nos ensinamentos dEle:

11 Mas o maior dentre vós será vosso servo.
12 Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado.
13 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando!
14 [Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque devorais as casas das viúvas e, para o justificar, fazeis longas orações; por isso, sofrereis juízo muito mais severo!]
15 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!
16 Ai de vós, guias cegos, que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso é nada; mas, se alguém jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que jurou!
17 Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro ou o santuário que santifica o ouro?
18 E dizeis: Quem jurar pelo altar, isso é nada; quem, porém, jurar pela oferta que está sobre o altar fica obrigado pelo que jurou.
19 Cegos! Pois qual é maior: a oferta ou o altar que santifica a oferta?
20 Portanto, quem jurar pelo altar jura por ele e por tudo o que sobre ele está.
21 Quem jurar pelo santuário jura por ele e por aquele que nele habita;
22 e quem jurar pelo céu jura pelo trono de Deus e por aquele que no trono está sentado.
23 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!
24 Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!
25 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança!
26 Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo!
27 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!
28 Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade.
29 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque edificais os sepulcros dos profetas, adornais os túmulos dos justos
30 e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas!
31 Assim, contra vós mesmos, testificais que sois filhos dos que mataram os profetas.
32 Enchei vós, pois, a medida de vossos pais.
33 Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?
Como?

09 outubro 2015

A profissionalização (des) necessária.

Minha superficialidade de conhecimento é de matar. Sinto-me culpado por não ler mais, estudar mais, dedicar-me mais. Ao mesmo tempo em que invisto meu free time do dia na capacitação educacional e profissionalizante, não sinto os efeitos concomitantes chamados de resultados. Não como minha mente imaginaria. Talvez eu me fantasie em mais ou menos do que seja, vai saber.

Ouvi, meses atrás, um conselho, pedido por mim, de alguém que chegou onde queria, profissionalmente falando, que o ideal era pautar a teoria pela prática inicial. Diante da escassez de recursos práticos que me levem onde quero, não absorvi o conselho como deveria.

Onde quero estar é conceito afetado pelas nuances de oportunidade e conveniência. Dado o berço em que se vive, percebe-se (com exceções raríssimas) como a semente germinará e que fruto dará.

A incompletude de meu ser se alastra dentro de mim, mesmo tendo que me conter, não me contenho. Não sou incrementalista, aquele que quer resolver tudo consensualmente, preservando o passado e que raramente resolve ou se posiciona por algo, mas sim, sou racional, arriscando-me em saltos que podem resultar em mudanças positivas ou negativas, afinal, quem não arrisca, não petisca. O tempo tem apaziguado a natureza, começo a perceber pequenos e raros traços de maturidade que me fazem pensar antes de agir.

No âmbito profissional, em que o capitalismo segrega as pessoas, empobrecendo e matando a maioria, e os governos utilizam-se de métodos regulatórios de mentirinha, é triste ver que os empregos estão chegando ao fim. Há quem defenda o colapso do capitalismo neste século, pois com ricos mais ricos e pobres mais pobres, um dia a situação estoura.

Meu papel neste mundo, indefinido pelo universo de definições conflitantes em meu ser, é cada dia mais retraído e difuso, diante da impossibilidade de dar uma de Cristo patrolando os fariseus e escribas, que não vão ao céu e nem deixam ninguém ir; tampouco de diabo, fazendo acordos escusos com pactos estranhos e de consequências incalculáveis.

A ansiedade generalizada de nosso mundo, em que quem não está bem quer estar e que está quer mais ainda, é parente consanguíneo das me-dá, me-dá, sanguessugas filhas relatadas a mais de 4 mil anos atrás.

Entristeço-me pela tendência que leva a humanidade ao seu próprio fim, sem precisar nem que Deus, Jesus ou Maomé voltem; tampouco que o diabo coloque fogo. Basta ver como tratamos a vida, se as casas são limpas, existem locais na cidade bem sujos; se a água da torneira é limpa, a água dos rios tá imunda; se o bueiro tá entupido, a culpa é do Poder Público, jamais minha que jogo lixo no chão; se os lixões estão lotados, devido a não reciclarmos vasilhas que demorarão mais que nossa vida para serem absorvidas pela terra; dentre outras situações que nos levam do início ao fim da estória, again and again, para que o ciclo de complete e torne a se repetir.

Somos kamikazes (nada dos diferencia deles e nossa natureza a eles se iguala), doidos querendo tacar uma bombinha aqui e ali, com os mais variados sabores, seja da bomba que mata, seja da que me privilegia, seja da que lesiona, seja da que não me prejudica, seja da que me mantém, seja da que me alça.

Nesse mundo cruel, composto por nós, pessoas cruéis, é preciso cautela para manter a vida, como no mundo animal (somos animais e fazemos parte deste mundo, mesmo não tirando preciosas lições dos safáris).

A vida é curta, o período de trabalho e estudos é longo, e de passo em passo precisamos deixar nossas vaidades de lado e investir tempo (e $) em capacitações, faculdades, cursos e práticas profissionalizantes (tudo é vaidade, não nos esqueçamos, tudo é vaidade!).






30 junho 2015

Redução da maioridade

O que fazer?

Quando havia briga a vingança privada era desmedida, matava-se na briga um, a família do outro matava cinco membros da outra família e isso não tinha fim.

Quando estipulou-se a proporcionalidade, o olho tirado era compensado pelo olho tirado, era olho por olho, dente por dente, lesão por lesão.

Na idade média a morte era a pena capital e as masmorras e prisões locais temporários até a espera do corte da cabeça.

Com as prisões sem morte, a cadeia era para vida toda, em condições insalubres e desumanas (eu diria inabitáveis, afinal, sequer animais viveriam muito tempo ali).

Com a segunda guerra a prisão de judeus era para o trabalho forçado e aniquilação de um povo, por puro prazer.

Com a criação da Organização das Nações Unidas, pós 1945, as penas não poderiam ser cruéis, degradantes, de trabalhos forçados, nem de morte.

No Brasil pós Lei de Execução Penal, 1984, o aumento do número de apenados é proporcionalmente a população do país, o maior do mundo e 4° por número de presos.

O país da educação, que não assume a educação como papel primordial de modelagem do ser humano, agora quer prender pessoas mais jovens, protegidas pelo ECA que previa apenas internação compulsória de até 3 anos.

O que fazer com jovens que assaltam, matam,estupram e queimam gente?

Eu não sei a resposta fora da expressão 'educação'.

A natureza humana de todos, e disso nem todos aceitam, é tendente ao agir vingativo, a violência.

O que nos torna sociáveis, cumpridores do pacto social?

A educação.

O que nos faz devolver o que não é nosso e não mexer no que é dos outros?

A educação.

O que nos faz não querer agredir ao próximo quando este tem uma vida boa em detrimento da minha merda de vida?

A educação.

O que faz com que jovens não saiam estuprando gente, ou queimando mendigos por diversão?

A educação.

E se a educação não der certo?

Em países em que houve investimento e preocupação social com a educação, o nível de violência e conseguinte de número de presos é mínimo, sobrando vagas.

E se não der certo?

Ai talvez diminuir a maioridade poderia ser uma solução?

Como tentar a prisionização em detrimento de políticas educadoras?

O clamor pela redução vai ser ouvido, isso é realidade.

Mas lá na frente, veremos que prender, apenas por prender, não adiantará.

17 março 2015

O COMPRIMENTO DAS CADEIAS

Roubado da Bacia das Almas

Agora entendo um pouco mais em como valorizamos o produto estrangeiro e barato, em detrimento dos nossos.

O comprimento das cadeias

Paulo Brabo, 6 de julho de 2014
A origem do fundamentalismo de mercado, sua base intelectual, é a noção de que não haverá jamais consequências não calculadas para as coisas porque, como em tudo se coloca um preço, você crê que está pagando por todas as consequências das suas ações.
Sir Partha Dasgupta, How To Price a Forest and Other Economics Problems
A sin­gu­la­ri­dade do modo de vida que tes­te­mu­nhei em Urubici no final da década de 1970 pode ser arti­cu­lada de diversas formas. A com­pa­ra­ção com Shangri-​​Lá de Horizonte Perdido pode ser ine­vi­tá­vel, porque um obser­va­dor entende de imediato que o caráter excep­ci­o­nal dos dois lugares – o vale da ficção e o da minha expe­ri­ên­cia – deve-​​se, em boa medida, ao seu relativo isolamento.
Minha primeira e mais duradoura impressão sobre Urubici talvez tenha sido essa, a de que o lugar tinha sido poupado de alguma coisa que havia muito cla­ra­mente arruinado outros lugares; uma coisa que arrui­na­ria mesmo Urubici se encon­trasse ocasião de chegar até ali.
Um dos modos menos sen­ti­men­ta­lis­tas de articular a diferença é lembrar que a Urubici daquele tempo tinha sido poupada de um deter­mi­nado modelo econômico – um deter­mi­nado modo de ver e de perfazer o trajeto entre a produção e o consumo.
O Brasil da década de 1970 já operava com uma malha bastante complexa de produção e de dis­tri­bui­ção. Em contraste, as cadeias de produção e de dis­tri­bui­ção em Urubici eram rela­ti­va­mente curtas.
Uma cadeia curta é quando você come o frango que criou, ou que comprou do seu vizinho. Uma cadeia longa é quando você come o frango que nasceu num criadouro, foi engordado numa fazenda indus­trial, foi pro­ces­sado numa indústria e ficou arma­ze­nado em pelo menos um centro de dis­tri­bui­ção antes de ser posto à venda no seu super­mer­cado – sendo que cada uma dessas etapas ocorre, com toda a pro­ba­bi­li­dade, em lugares rela­ti­va­mente distantes de você e uns dos outros.
Uma cadeia admis­si­vel­mente curta é quando um cidadão de Urubici veste uma camiseta que foi produzida em Blumenau. Uma cadeia longa é quando a camiseta que você veste tem uma etiqueta em inglês e foi produzida no con­ti­nente asiático.
O capi­ta­lismo, espe­ci­al­mente em sua mani­fes­ta­ção tecno-​​industrial, tende a produzir cadeias de produção e de dis­tri­bui­ção cada vez mais longas e complexas. Não é que o capi­ta­lismo dê por princípio pre­fe­rên­cia a cadeias longas; são as ênfases capi­ta­lis­tas em pro­du­ti­vi­dade, espe­ci­a­li­za­ção e maxi­mi­za­ção dos lucros que acabam esti­mu­lando o alon­ga­mento das cadeias.
Sem nos darmos conta, patro­ci­na­mos cadeias de produção e de dis­tri­bui­ção que têm cada vez mais etapas, mais rami­fi­ca­ções, mais inter­me­diá­rios e mais depen­dên­cias. Nos casos de produtos de alta tec­no­lo­gia, essas cadeias acabam se des­do­brando em sistemas de uma com­ple­xi­dade bestial.
Um dis­po­si­tivo que teve o seu design esta­be­le­cido nos Estados Unidos têm os seus com­po­nen­tes pro­du­zi­dos em vinte países e três con­ti­nen­tes. Essa multidão de com­po­nen­tes mul­ti­na­ci­o­nais descobre modo de se reunir magi­ca­mente numa única fábrica da China, nas mãos de um único e anônimo ex-​​camponês, antes de atra­ves­sar montanhas e mares e encontrar o caminho de uma loja de shopping em São Paulo ou de um super­mer­cado de bairro em Campina Grande – tudo para que você tenha como jogar Candy Crush na sua próxima ida ao banheiro.

As pena­li­za­ções

À primeira vista as longas cadeias parecem não fazer outra coisa que premiar o con­su­mi­dor, porque efetuam a sua mágica de modo a pul­ve­ri­zar custos que a economia local não poderia ou não se disporia a cobrir. O resultado são preços menores para produtos que viajaram mais. Se quiser (e quem poderia resistir?) você pode pagar menos por um manteiga francesa, um peixe defumado canadense ou uma camiseta chinesa do que por produtos similares que foram manu­fa­tu­ra­dos a metros de você.
Natu­ral­mente esses milagres têm os seus custos, mas o sistema tem meca­nis­mos – a própria extensão das cadeias, a atração dos preços mais baixos – que trabalham para mantê-​​los ocultos.
Para entender os custos locais desse modelo econômico é preciso a dádiva de uma pers­pec­tiva que é cada vez mais rara. A mim essa pers­pec­tiva foi oferecida por Urubici naquelas minhas primeiras viagens a Santa Catarina.
Grande parte do que achei de admirável no modo de vida do vale só era possível porque (e só per­ma­ne­ceu sendo possível enquanto) sua sociedade não havia sido ainda seduzida e pena­li­zada pelo sistema de cadeias longas.
Permita-​​me examinar alguns aspectos dessas penalizações.
► As longas cadeias minam a inde­pen­dên­cia e a autonomia
Os uru­bi­ci­en­ses que conheci no fim da década de 1970 tinham um senso de autonomia e de sufi­ci­ên­cia que chegava a intimidar. Não me lembro de ter tido medo de uma pessoa boa, um medo que era também uma espécie de admiração, antes de conhecer aqueles homens e mulheres. Aquela era gente livre, como gente ide­al­mente deveria ser – e como eu não tinha visto ninguém na cidade con­se­guindo permanecer.
Meus amigos de Urubici tinham motivo para parecer livres e autônomos: de fato eram. As cadeias curtas de produção e de dis­tri­bui­ção são brasões de autonomia da sociedade local, e nisso capacitam os seus habi­tan­tes em modos numerosos demais para contar.
São também parte essencial daquilo que se con­ven­ci­o­nou chamar de sus­ten­ta­bi­li­dade – o projeto de manter vivo e viável um deter­mi­nado modo de vida.
Seduzida pela aparente con­ve­ni­ên­cia das cadeias longas, a sociedade perde de vista o que deveria parecer óbvio: que as cadeias longas tornam inviáveis as cadeias locais.
O produtor local que perde seus com­pra­do­res perde não só o seu sustento: perde também a opor­tu­ni­dade de expor ao mundo, a si mesmo e a seus des­cen­den­tes a dignidade do seu modo de vida.
► As longas cadeias inibem a cultura local e tendem a riscá-​​la do mapa
Uma cultura local é um ecos­sis­tema de modos de fazer, um conjunto de feições desenhado pela história e pela geografia. Tradições tornam-​​se tradições porque uma sociedade decide cole­ti­va­mente, no espaço de gerações, que um deter­mi­nado conjunto de modos de fazer serve mais do que qualquer outra alter­na­tiva para representá-​​la diante de si mesma e distingui-​​la diante das outras.
Nenhuma sociedade da história existiu com­ple­ta­mente isolada da influên­cia das outras, mas antes do nosso tempo nenhuma sociedade teve que competir com uma cultura global.
A com­pe­ti­ção das longas cadeias de produção e de dis­tri­bui­ção invi­a­bi­liza a cultura local porque esta­be­lece como inviável o estrato mais fun­da­men­tal dos seus modos de fazer, aquele da subsistência.
Quando no mercado local introduzem-​​se produtos sub­si­di­a­dos pelo com­pri­mento das suas cadeias, o pequeno produtor (ou o pequeno artesão) acaba enten­dendo que não pode continuar sendo pequeno e produtor. Ele (ou pelo menos seus filhos) serão com­pe­li­dos a abandonar os antigos modos de fazer. Via de regra darão ouvidos ao apelo universal para entrar no mercado, num cenário urbano ou pelo menos numa fábrica: querendo dizer, passarão a vender a sua mão de obra em vez da sua produção.
Serão empre­ga­dos.
É uma transição tão radical que acaba dizimando no seu lastro todas as tradições e toda a cultura associada ao modo de vida anterior.
► As longas cadeias ocultam os custos locais das longas cadeias
Quando compra um artigo de 1,99 você via de regra não o faz por um ódio deli­be­rado à economia local. Na verdade, deter­mi­na­dos preços são tão excep­ci­o­nais que geram a impressão de que ninguém está sendo pre­ju­di­cado por eles; parecem existir lite­ral­mente fora da competição.
O fato é que nada no planeta custa 1,99, a não ser que alguém fora do seu campo de visão esteja pagando a diferença. Essa trans­fe­rên­cia de custos é o mecanismo mais essencial do sucesso das longas cadeias (ver abaixo), mas não é o único.
Quando a longa cadeia lhe oferece um produto a um preço muito inferior ao de um similar produzido local­mente, você se sente tentado a pensar que apenas os de fora estão sub­si­di­ando aquele preço.
A mate­má­tica, natu­ral­mente, é outra. Num sentido impor­tante, os produtos das longas cadeias são baratos porque não estão dando nada à economia local, existindo à parte e sem qualquer com­pro­misso com ela. Via de regra, o custo das longas cadeias para a economia local é a economia local.
► As longas cadeias ocultam os custos globais das longas cadeias
Quando a produção é local, entra em ação um mecanismo natural de contenção e de controle. Como a manu­fa­tura e o consumo acontecem dentro das suas fron­tei­ras, a comu­ni­dade pode avaliar dire­ta­mente até que ponto os recursos locais estão sendo abusados, até que ponto a paisagem local está sendo des­ca­rac­te­ri­zada e até que ponto os tra­ba­lha­do­res locais estão sendo explo­ra­dos no processo.
As cadeias longas de produção ter­cei­ri­zam essas res­pon­sa­bi­li­da­des e ocultam cada um desses custos. Você compra o produto final, mas não tem como retraçar a partir dele as comu­ni­da­des que foram obli­te­ra­das pela nova hidre­lé­trica, as casas cen­te­ná­rias que foram aplai­na­das em esta­ci­o­na­men­tos, as espécies que foram desa­lo­ja­das ou extintas pelo avanço dos parques indus­tri­ais, os reti­ran­tes que foram arre­ba­nha­dos de seu modo de vida original a uma linha de produção confinada e insalubre.
Ter­cei­ri­zar res­pon­sa­bi­li­da­des raramente é uma boa ideia. Via de regra a extensão dos danos só aflora quando é tarde demais para corrigi-​​los – ocasião em que todos os envol­vi­dos poderão afirmar, sem mentir muito, que não tinham ideia clara do que estava acontecendo.
Um exemplo do modo como as longas cadeias de produção e de dis­tri­bui­ção ocultam os custos globais que as sustentam é o caso da carne bovina.
Não é sem razão que na maior parte da história, em todas as geo­gra­fias, as pessoas comiam carne apenas oca­si­o­nal­mente, espe­ci­al­mente fresca. Criar um animal de corte requer con­si­de­ra­vel­mente mais recursos do que outras alter­na­ti­vas ali­men­ta­res. Com os 15.500 litros de água que são neces­sá­rios para produzir um quilo de carne bovina se produzem 12 quilos de trigo ou 118 quilos de cenoura.
O capi­ta­lismo se faz de louco e opera como se comer carne fosse algo natural como respirar ou beber água, mas a natureza opera de modo muito diverso. O que o sistema esconde é que é preciso queimar uma quan­ti­dade enorme de recursos para sustentar farsa tão escabrosa.
Se é tão caro produzir carne, de onde um cara nada rico como você tira recursos para comê-​​la com tanta frequên­cia? O seu bife está sendo sub­si­di­ado, em parte pelo governo, em parte pelo planeta.
As longas cadeias mantém fora do seu campo de visão o acre de floresta amazônica que é derrubado por segundo para dar lugar à criação de gado ou à produção de grãos des­ti­na­dos a alimentar essa indústria. Um quilo de alcatra custa muito mais do que você poderia comprar, mas a extinção irre­ver­sí­vel das espécies e a obli­te­ra­ção sis­te­má­tica do pulmão do mundo têm feito a cortesia de pagar a diferença.
Grande parte do planeta está passando fome, mas para a sua con­ve­ni­ên­cia as longas cadeias ocultam que os recursos que sub­si­di­a­ram o seu churrasco poderiam ter sido empre­ga­dos para saciar uma pequena multidão. Você come o seu McLanche feliz sem ter de pesar que mais de 40% da produção global de soja, trigo, centeio, aveia e milho são usados para alimentar não seres humanos, mas gado de corte.
► As longas cadeias ocultam os custos humanos das longas cadeias
Como estamos falando de sistemas complexos, com rami­fi­ca­ções em diversos con­ti­nen­tes, países e for­ne­ce­do­res, é por definição impos­sí­vel para o con­su­mi­dor acom­pa­nhar as eventuais injus­ti­ças e atro­ci­da­des sociais patro­ci­na­das pelas longas cadeias do capi­ta­lismo ao longo do trajeto.
Você compra o seu smartfone, mas não precisa ficar sabendo que as condições de trabalho em que ele foi montado numa fábrica chinesa são tão desumanas que as janelas são gradeadas e os prédios providos de redes de segurança, na tentativa de conter o avanço dos suicídios.
Você não precisa tes­te­mu­nhar o drama das famílias desa­lo­ja­das, das comu­ni­da­des e culturas riscadas do mapa, de gente em nada diferente de você roubada da sua dignidade.
Diminuir os custos e maximizar os lucros é o mantra do capital. Os batedores do capi­ta­lismo vivem sondando o planeta em busca da mão de obra mais barata dis­po­ní­vel, de modo a explorá-​​la nas suas longas cadeias.
Até recen­te­mente, por exemplo, a China era o grande centro de manu­fa­tura das roupas con­su­mi­das no ocidente. Esse eixo vem se trans­fe­rindo para Ban­gla­desh, onde as grifes encon­tra­ram mão de obra disposta a trabalhar por menos, com menos garantias e em condições de trabalho mais insa­lu­bres.
As grandes cor­po­ra­ções não mexem nesse tabuleiro para perder. Elas não repassam para você um desconto que já não tenha sido pago por outro ser humano. A regra geral é esta: quanto menor o preço final de um produto de longa cadeia, mais brutais você pode concluir que foram as condições da sua manufatura.
► As longas cadeias separam o con­su­mi­dor do custo ver­da­deiro do que está consumindo
“O capi­ta­lismo pre­da­tó­rio”, diz-​​me o ativista Robert David Steele, “baseia-​​se na pri­va­ti­za­ção do lucro e na exter­na­li­za­ção dos custos. Ele é uma extensão do con­fi­na­mento dos recursos comuns, das clausuras, e é acom­pa­nhado pela cri­mi­na­li­za­ção dos direitos e costumes comuns que valiam anteriormente”.
O que Steele chama de exter­na­li­za­ção dos custos é a própria essência da longa cadeia de produção e dis­tri­bui­ção. O capi­ta­lismo pre­da­tó­rio anda em derredor buscando recursos naturais e mão de obra baratos que possa tragar, não importa em que lugar do mundo.
Uma das con­sequên­cias desse modo operação é que ele aliena a sociedade local do ver­da­deiro custo dos produtos que consome. Tendo sido exter­na­li­za­dos, os custos perderam toda relação com o preço final, e fica muito difícil estimá-​​los. Steele:
Precisamos é de um sistema que preste contas integralmente de todos os custos. Por exemplo, meu colega J Z Liszkiewicz calculou que uma camiseta branca de algodão encerra cerca de 570 galões de água e entre 11 e 29 galões de combustível, bem como um bom número de emissões e toxinas, incluindo pesticidas, vapores de diesel, metais pesados e outros compostos voláteis – e comumente envolve ainda trabalho infantil. Pesar esses custos e seu impacto social, humano e ambiental tem implicações para o modo como devemos organizar a produção e o consumo que diferem em muito do presente capitalismo predatório.
► As longas cadeias roubam a pers­pec­tiva – do que está acon­te­cendo e do que pode ser feito
Como resultado do men­ci­o­nado acima, todas as partes envol­vi­das são roubadas de pers­pec­tiva: uma visão clara e global das con­sequên­cias do que estão fazendo.
As soci­e­da­des locais por certo não têm essa pers­pec­tiva. O sistema colocou-​​as num ponto cego, e espera-​​se que se bene­fi­ciem pas­si­va­mente do sistema de longas cadeias sem ter que entender o que envolvem. A única atitude não-​​passiva da sociedade local deve ser sua con­tri­bui­ção ativa para a manu­ten­ção de outras longas cadeias – con­tri­bui­ção de cujos custos as demais soci­e­da­des per­ma­ne­ce­rão igno­ran­tes, e assim por diante.
Os governos e cor­po­ra­ções por certo não têm essa pers­pec­tiva. Sua eficácia como ins­ti­tui­ções depende de ignorarem e passarem por cima dos preços pagos pelas soci­e­da­des locais para o avanço de sua “causa maior”. Quando toda a Amazônia for um esta­ci­o­na­mento estarão ainda recusando-​​se a admitir que alguma coisa foi perdida.
Num sistema em que ninguém sabe exa­ta­mente o que está acon­te­cendo, em que ninguém sabe o ver­da­deiro custo de nada (quem pode ver­da­dei­ra­mente estimar o custo de um acre de mata derrubado por segundo?), ninguém se sente res­pon­sá­vel e ninguém será chamado a prestar contas, a não ser que todos sejam.
Sistemas complexos sem espaço para res­pon­sa­bi­li­dade e prestação de contas são um convite ao desastre. O desastre não é conhecido por recusar convites dessa natureza.
► As longas cadeias se tornam cadeias: o capi­ta­lismo é um sistema do qual ninguém consegue sair
Na Urubici do final da década de 1970, com seu regime de cadeias curtas, meus amigos conheciam uma liberdade que nos nossos dias tornou-​​se pra­ti­ca­mente impos­sí­vel de exercer.
Aqueles caras extraíam o seu sustento da terra (e pare um minuto para sentir quão século XIII soa essa ideia lida na telinha do seu smartfone). Não arren­da­vam a sua força de trabalho para terceiros, mas empregavam-​​na para si mesmos. Não eram de modo algum soci­a­lis­tas, mas sub­sis­tiam à parte do mercado.
E, das into­le­rân­cias do fun­da­men­ta­lismo de mercado, esta é a primeira: o capi­ta­lismo não tolera que alguma coisa exista à parte do mercado. À parte do mercado ninguém deve ter permissão para sentir que existe.
O capi­ta­lismo cor­po­ra­tista apropriou-​​se e reo­ri­en­tou todos os aspectos da cultura de modo a reforçar esse único dogma. É por isso que os filhos de meus amigos de Urubici trocaram aquele modo de vida por modos urbanos em outras cidades: para entrarem no mercado – porque quem não está no mercado não deve sentir que existe. É por isso que mandamos as crianças para a escola; não para que aprendam alguma coisa, mas para que aprendam a entrar no mercado – porque quem não está no mercado não deve sentir que existe. É por isso que as pessoas escrevem livros e pintam quadros, não para dizer alguma coisa ou para a glória da aventura humana, mas para vendê-​​los no mercado – porque quem não está no mercado não deve sentir que existe.
É por isso que neste mundo quem acontece de estar desem­pre­gado é compelido a sentir-​​se, de modo muito real, menos do que gente. A própria palavra faz questão de demarcá-​​lo. No regime capi­ta­lista um desem­pre­gado (que é, em termos estritos, uma pessoa livre) deve sentir que não tem emprego: não tem utilidade, não tem dignidade, não tem lugar, não tem valor.
Se existe ideologia mais perversa, ou sistema mais eficiente de mani­pu­la­ção, esses não acabarão subs­ti­tuindo o capi­ta­lismo. O capi­ta­lismo é que se mostrará pronto a incorporá-​​los.

Paulo Brabo



11 fevereiro 2015

Incompleto

Estive pensando nas últimas semanas sobre nossa incompletude. Muitas vezes temos tudo e temos a sensação ingrata e insana de que não temos nada.

Medimo-nos pela régua de nosso status social, esquecendo que a pobreza, a miséria, a falta de acesso aos bens mais básicos, é a regra deste mundo. Menos de 10% da população mundial detém mais de 90% de toda riqueza mundial.

Devemos mudar este mundo, ou se esforçar para fazê-lo? Partindo do pressuposto de que só temos este planeta e que ele tem recursos naturais finitos, nada do que fizermos vai mudar o que está posto.

Por outra banda, agir sem consciência de respeito para com este mundo, e as pessoas que nele convivem, pode sim vir a trazer consequencias de antecipação do fim, que é certo.

Temo estar virando um eremita, com meus conceitos pessoais que nem sempre são partilhados pelo vento. O temor maior do meu coração é de não ter a oportunidade de disseminar que o respeito  a dignidade humana pode ser uma opção através do amor, que contagia e apara as arestas da nossa natureza cheia de falhas.

Não somos completos mesmo tendo tudo, talvez sejamos mais completos não tendo nada, paradoxo que nos remete às bem-aventuranças de Jesus em seu reino de valores invertidos em relação aos valores deste mundo.

Felizes os pobres, os injustiçados, os perseguidos, os que nada tem, ousou gritar aos que ouviam o Rabi de Nazaré no chamado sermão da montanha.

A lição é que ter menos, ser menos, estar menos, nos leva ao resultado mais agradável, a de ainda hoje estar com o Crucificado e Ressurreto no paraíso.

Assim seja.

05 novembro 2014

O corrupto que vive em nós

Diante das eleições, mudanças de governo que virão, ouso dizer, tudo é mais do mesmo.

Não há um justo sequer, já diz as escrituras faz tempo.

A coisa vai se repetir, como disse o Eclesiasta.

Também tem a célebre frase do violeiro, a coisa tá feia e preta, que não for filho de Deus, tá na unha do capeta.

A corrupção, o desvio de verba, etc sempre existiu, e não deixará de existir, já que é um dos elementos do DNA humano, desde o primeiro homem.

Ignorante somos nós, em pensar que um país recém saído da escravatura (120 anos é um pulo, historicamente falando), vai ter mudanças significativas em seu bojo.

O financiamento de campanha é ridículo. Milhões de reais doados.

Se ninguém dá nada de graça. Se todos emprestam a juros. Logo, quem financia campanha, vai cobrar depois.

E como pagar? Através de contratinhos, diziminhos, mensalinhos, nepotismozinhos etc.

Digo eu, não os outros, que o sistema jurídico brasileiro é bom, bem pensado e honestamente falando, sério e justo.

Contudo, existem brechas, que devem ser melhor trabalhadas por todos, inclusive nossos congressistas. Afinal, precisamos nos proteger com leis eficazes, de nós mesmos.

Sem perder o foco em Jesus ouso dizer que isto me importa mais do que deveria, dentro de mim.

O Mestre estava preocupado mais nas vidas que hoje receberiam o fome zero, que nas cúpulas romanas que governavam e desviavam recursos da petroroma.

Não, não tenho a pretensão de mudar o mundo que nem meu Mestre mudou, almejo segui-lo de modo a que as vidas mais carentes possam ser afetadas de algum modo pelo Mestre através de mim.

A questão é, know how? Enquanto só sei perguntar, vou capacitando aqui e acolá na pretensão de abraçar o maior número de conhecimento possível, a fim de não ser pego de calças curtas, situação que não pretendo que aconteça.

A realidade é uma só e a gente vive fugindo dela, somos o tal de ying e yang, parte bom e parte mau, metade honesta e metade desonesta, parte corrupta e outra incorrupta.  E não adianta escapar.



16 setembro 2014

Diversas coisinhas, incluindo política

A vida segue mais rápido do que meu espírito a assimila. Por falar nisso, quando viajo, lembro-me da historinha dos índios que auxiliaram um branco em uma expedição. Primeiro dia, seguiram o caminho, andaram e andaram. Segundo e terceiro dia caminhada repetida. Já no quarto dia os índios decidiram não ir naquele dia. O branco perguntou o motivo e eles responderam: Nosso corpo caminhou demais, nosso espírito ficou para trás, precisa nos alcançar.

...

Acho que só os loucos, como eu, perceberam que as irreverências e safadezas do mundo político são inerentes a nós, os humanos. Não tem para onde fugir. Somos bombardeados pela caricatura de nós mesmos. Aqui, tem candidato que foi governador por 8 meses, era vice, e recebe R$ 9 MIL de 'aposentadoria'. Ele explicou dias atrás que era legal, não seria ele que iria questionar, talvez não aprovasse tal lei, mas daí a rejeitá-la. E eu pensando com meus botões, nove milzinho na conta de grátis todo fim de mês, e lícito, será que eu na minha avançada inicial meia idade, desistiria de tal benesse? Então.

...

Ainda sobre política, não sendo eu tão chato, ou como diria um ser do além que um dia me disse ser minha rede relacional deveras retraída e inexpressiva, talvez pela raiva da filha feia dele ter sido apaixonada por mim na sua adolescência, sinto vontade de candidatar-me. Não para salvar a saúde, educação ou segurança, coisas 'insalváveis', mas talvez para não ser eleito, mas como disse o Levi Fidélix (que se parece com meu querido sogro), só para incomodar e levar à reflexão.

...

Minha vozinha me ensinou o que ensinou aos seus filhos, que o caminho a ser seguido é árduo e demanda esforço. Palavras dela: "Se lá na frente você me encontrar no seu caminho te atrapalhando, passe por cima e siga em frente". Aí vem Jesus e diz: se um desconhecido tá na beira do caminho jogado, trate-o e ame-o. Se um seguidor dele não cuida da sua família, é pior que o que não o segue. 

...

Situações complexas do dia a dia estas, que necessitam da nossa compreensão, atenção e reflexão. Amemos, como se não houvesse amanhã, como aquele que deu sua vida por amor, e morte de cruz.





05 julho 2014

O caminho que nos traz a paz

Não vos enganeis, disse o filho do carpinteiro, estreito é o caminho.

Largos são os caminhos que conduzem à perdição, completou.

No caminho ousamos andar, correr, descansar, comer, por vezes ousamos ousar.

Nada há que não seja vaidade, inclusive no caminhar.

Os pés ficam calejados e cheios de poeira ou finos e limpinhos.

Tem lugar que a poeira tem que sair dos pés, também tem lugar que dá vontade de manter os pés sujos com aquela boa poeira.

Se há vida há caminho a trilhar.

Se respiro, não posso parar.

Se descanso, posso perder o tempo de chegada, porém se não descansar, posso ficar na metade sem fôlego.

Há muitos caminhos, um só porém nos traz a paz que excede o entendimento.

É árduo mas seu fim, não é amargo como absinto, é alívio para pés cansados.

Meu eu interior quer trilhar o caminho mais difícil (e mais correto), meu eu exterior o caminho mais fácil (e de fim duvidoso).

Mas em todas estas coisas, temos a possibilidade de vitória, pois E'le se deu por nós, ainda quando éramos mais pecadores do que somos.


10 março 2014

O mar da vida

Diz a música que se o mar da vida quiser nos afogar, segurando na mão de Deus é que poderemos seguir.

A frase tem perdido o sentido para nossa geração, já que os meios de transporte mais conhecidos e utilizados são outros, diferentemente da época em que o mar era o melhor translado possível.

Mas a frase, paradoxalmente, não tem perdido o sentido, pois se as águas do mar da vida realmente estiverem nos sufocando, afogando, segurando na mão de Deus é que obteremos salvação.

Basta que Jesus da Galiléia, o Filho de Deus (creio eu), diga uma só palavra e as águas se acalmarão novamente e a salvação poderá adentrar em nossas almas.

Para tanto, basta a fé (acreditar) e depois seguir.

18 fevereiro 2014

2014

Ah, o tempo!
Ele tem sido generoso por aqui. Sinto falta de postar no blog, ser mais ativo na blogosfera, em que pese ainda ter a mesma característica (afinal, não se colhem uvas de espinheiros), de não ser tão profundo e prolixo quanto julgo que deveria ser.

Quando a gente vai crescendo (não se iluda, para algum lugar ainda se cresce), vai entendendo algumas coisas, ratificando a dúvida em outras, desconstruindo aquelas e continuando a errar nas mesmas.

Ainda leio os mesmos colegas da blogosfera, com menos intensidade e mais amor, sentindo muito por não ter afunilado mais as amizades e me alegrando por saber que não estou só em meus doidos pensamentos, principalmente acerca do Rabi Galileu e seus ensinamentos.

A cada dia deste século uma novidade aparece, uma responsabilidade quer te engolir e olhando para trás você apenas percebe que a história tende a se repetir, talvez se reformulando com algum esforço.

Tem dias que penso que a força da gravidade me remete a ser quem sou e ter o que tenho, mas há outros em que concluo ser o produto do meio, outros também em que me imagino sendo capitaneado pelo Divino, alguns em que luto pela mudança radical, bem como outros a que nem quero saber.

A vida é assim, curta e longa, feliz e triste, completa e incompleta e bem aventurado aquele a quem o Filho do Homem, o Senhor até do sábado (quanto mais dos outros dias), libertar, este será verdadeiramente livre!

09 setembro 2013

MUDANÇAS - Observância dos princípios constitucionais




As manifestações atuais ocorrentes nas mais diversas cidades do Brasil não podem passar despercebidas pela Administração Pública, seja Federal, Estadual e Municipal, melhor dizendo, pelo Poder Executivo. Parece, e disto a mídia tem enfatizado, que a necessidade de reforma política passa apenas pelo Poder Legislativo, com medidas de mudança do ordenamento jurídico, seja na aprovação de políticas públicas até então engavetadas, ou na transparência do modo de legislar, com adoção de mecanismos mais claros, como o voto aberto para cassação de seus pares, vide caso do Sr. Natan Donadon.

Desde o início da dicotomia público-privado, mais desenvolvida com o capitalismo, em que ficou separado o conceito e papel do Poder Público face as atividades mercantis/negociais da sociedade, em que aquele sempre teve supremacia ante este, há uma tendência de se fortalecer a esfera pública com métodos diferenciados da esfera privada.

O Estado, aqui dividido conforme pensamento de Montesquieu entre Poder Executivo, Legislativo e Judiciário, possui patrimônio e renda próprios, além da primazia sobre a esfera privada, com a possibilidade de medidas coercitivas e regulatórias das relações firmadas entre os cidadãos.

E muito se tem mudado no decorrer da história. Os sociólogos, filósofos, juristas e demais pensadores, como humanos que são, não firmaram, e nem poderiam, uma teoria única, nem tão pouco perfeita sobre o funcionamento do Estado e o modo com que age face ao povo.

As vítimas maiores da insatisfação popular, sempre foram os governantes, os ditos 'soberanos', titulares do Poder Executivo, sendo que no Brasil tais insatisfações são claras na memória, nas pessoas de Getúlio Vargas e Fernando Collor, ainda mais em relação ao regime ditatorial militar. Hoje, os maiores alvos de nossa insatisfação são os membros do Legislativo, com exceção de Estados como o Rio de Janeiro, onde reclamam invariavelmente do Governador Sérgio Cabral.

E o Poder Executivo, que deve cumprir, dentre outros, com os princípios matrizes constitucionais previstos no artigo 37, caput, da Constituição da República de 1988, quais sejam, legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, parece que colocou no bolso estas regras, para não cumpri-las, ou, ainda, para fingir que cumpre, de modo a nos ludibriar.

E não são poucos os casos de mitigação dos princípios citados, como da legalidade, com a emissão de Decretos Autônomos Inconstitucionais; com a impessoalidade, na seleção dos chamados “amigos do rei” em facilitações ocorridas em licitações ainda arcaicas e pessoais, como a Carta Convite; no desvio de recursos públicos e demais medidas imorais e improbas, feitas por debaixo dos panos; na ausência de publicidade, o que enfraquece até os órgãos de controle; e pior, na até hoje não regulamentada eficiência, o que culmina em execução de serviços públicos e em servidores ineficientes, por não haver regras objetivas seja na seleção e verificação de perfil dos servidores públicos, seja na ausência de fiscalização e controle de obras e políticas públicas.

É característica do servidor público não se incomodar com os maus gestores, patrões temporários eleitos pelo povo e/ou indicados por estes. A estabilidade, como o nome diz, traz ao servidor público o conformismo, a necessidade de não se indispor com o que nem é de sua conta, até pelo medo das existentes perseguições políticas, fato que deve mudar.

É uma linha tênue, a necessidade de o servidor público ter condutas éticas, sendo leal a instituição a que servir, honrando e subordinando-se a sua chefia, submetendo-se aos órgãos de controle e crivos sociais, sendo eficiente, impessoal e probo, face a possibilidade de se negar a cometer atos estranhos a sua função, ilegais, imorais e ímprobos, pela já dita perseguição. Muitos optam por não se indispor, para não serem prejudicados.

O fato é que o desafio de mudar o país, passa pelos três poderes constituídos, a que se dá ênfase ao Poder Executivo, que é maestro do que ocorre neste país, é de responsabilidade não só de quem faz as leis, mas também dos governantes atuais no cumprimento dos princípios e normas constitucionais e legais.

Para tanto, somente com a mudança do interior, do coração para fora, de pessoa por pessoa deste país, conseguiremos obter êxito em uma sociedade mais livre, justa e solidária, objetivo fundamental da República Federativa do Brasil (artigo 3o, inciso I, CRFB).

04 setembro 2013

Conhecimento = Rir, detestar, deplorar?

Lendo a introdução do livro “A verdade e as formas jurídicas”, de Foucault, achei interessante o debate sobre o resultado do conhecimento e suas nuances, no que pertine a ridere, lugere, detestari.

“Spinoza dizia que, se quisermos compreender as coisas, se quisermos efetivamente compreendê-las em sua natureza, em sua essência e portanto em sua verdade, é necessário que nos abstenhamos de rir delas, de deplorá-las ou de detestá-las.”

Foucault parafraseando Nietzsche, em o livro Gaia Ciência, disse que o mesmo não somente abominava o pensamento de Spinoza, como o fato era o contrário, ou seja, o conhecimento e a compreensão, por vezes sinônimos, perpassam por um jogo e luta desses três instintos, mecanismos, paixões.

Era defendido que esses impulsos – rir, destestar e deplorar – são ordens de más relações, pois ao se adquirir maiores conhecimentos, afasta-se o objeto, seja se protegendo pelo riso, desvalorizá-lo pela deploração ou afastá-lo ou destruí-lo pelo ódio.

Deste modo, no conhecimento não há no conhecimento felicidade e amor, mas ódio e hostilização, caracterizando um sistema precário de poder. Conclui-se que a filosofia estaria longe de indicar o conhecimento, devendo, os que o buscam, se aproximar dos políticos, compreendendo as relações de luta e poder. - “na maneira como as coisas entre si, os homens entre si se odeiam, lutam, procuram dominar uns aos outros, querem exercer, uns sobre os outros, relações de poder – que compreendemos em que consiste o conhecimento”.

Hoje, dia 04 de setembro de 2013, ao ouvir na rádio Senado o debate sobre o projeto de lei em que se debatia a transparência dos doadores, sejam pessoas físicas ou jurídicas, para campanhas eleitorais, me aproximei dos políticos para ouvi-los, com suas falas de relação de poder, em sua maioria se negando a querer declarar quem doa para que façam campanhas políticas, sob o argumento de que tal fato se faz as escuras e se fosse as claras, sequer dinheiro para campanha teriam. Fato é que a emenda proposta não fora acolhida.


Me aproximei e logo quis me afastar, para bem longe. Prefiro continuar crendo que o conhecimento vem do alto, do Pai das Luzes, em quem não há sombra de variação alguma e que concede o conhecimento a quem quiser, bastando pedir.

30 agosto 2013

Reprovados

Examinem-se para ver se vocês estão na fé; provem-se a si mesmos. Não percebem que Cristo Jesus está em vocês? A não ser que tenham sido reprovados! (1 coríntios 13:5)

O ato de refletir e examinar a nós mesmos é o mais sensato. Somos seres morais e nascemos com a noção de certo e errado, ainda que o meio, a herança genética ou a natureza pecaminosa e malvada nos leve ao cometimento de atos ruins.

Ainda que tudo esteja bem, examinar e provar a si mesmo é medida necessária. Ouvi dizer que o ditado de que time em que está ganhando não se mexe é mito, pois se o que está perdendo está mudando para aprimorar-se, uma hora o que ganha vai começar a perder.

Um exemplo é o time do São Paulo, campeão brasileiro de futebol várias vezes e que agora está na lanterna do campeonato. 

Meus pecados me levam a refletir, me examinar e provar, para que eu perceba, dia após dia, que Cristo Jesus, aquele que morreu na cruz para que Deus me perdoasse, esteja em mim.

Não quero ser reprovado, não quero ser um homem mal, não quero cair no caminho. Antes, quero ser aprovado, com aquele gostinho que temos ao sermos aprovados na escola e com aquele sentimento de que as férias estão chegando.

E se minhas notas não forem tão boas, torço para Jesus o Cristo me colocar na recuperação, me dando nova chance para aprovação.

Para isso, me provo, me examino e peço a Deus Pai Nosso, Santificado seja Teu Nome,  que me perdoe as ofensas, que não me falte o pão, que venha a mim o Reino DEle, que seja feita a vontade DEle e que não me deixe cair em tentação, amém.


07 agosto 2013

Estado, Governo e Mercado



A atuação do Estado de Intervenção Mínima, pautada inicialmente no liberalismo de Hobbes e Locke, se atinha a não intervenção nas relações contratuais do homem, tais como os direitos de propriedade e liberdade, sendo o mercado autorregulável, competindo ao Estado somente assegurar a concorrência e impedimento a organização em cartéis, segundo a teoria de Adam Smith. Nessa época, pouco se admitia a prestação de políticas públicas sociais, destaque-se a Lei dos Pobres (poor law), inserida no século XVI na Inglaterra, consistente em auxílio financeiro às pessoas pobres, incapazes de gerir seu sustento, lei esta duramente criticada pelos pensadores liberais, sob o argumento de que era contrária ao princípio da autoindependência dos indivíduos em uma sociedade livre.
Com as mudanças nas sociedades capitalistas a partir do final do século XIX e início do século XX, época do crescimento do capitalismo, em que houve o enfraquecimento da liberdade econômica e contratual, os Estados mudaram o foco do pêndulo das relações entre Estado e Mercado, inserindo legislações protecionistas e regulatórias das relações mercantis.
Após o fim do ciclo do Estado de Bem-Estar Social, surgido após a crise americana de 1929, na virada dos anos de 1970 para a década de 1980, perdurando até os dias atuais, insurge-se o Estado Neoliberal, fruto da Globalização, na mesma toada do Estado de Intervenção Mínima, cujas características basilares são a necessidade de desregulamentação, privatizações e abertura de mercados no âmbito internacional.
A diferença agora, no neoliberalismo, seria que os direitos sociais conquistados no processo pós segunda guerra mundial e dissolução dos Estados Totalitários, ditos socialistas, tais como o combate a pobreza e ao desemprego, o direito a saúde, educação, formação profissional e dignidade da pessoa humana, permaneceriam vigentes, mantendo-se na agenda estatal.
No Brasil, por exemplo, com o advento da chamada Constituição Cidadã em 1988, seguindo a Teoria da Intervenção Mínima, o artigo 170 é claro ao afirmar que “a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social”.
Ao intervir somente nas questões necessárias, ou seja, minimamente, a qualidade de vida dos cidadãos se eleva, pois a estes, a nós, é garantida a livre iniciativa, mas também a existência digna e a valorização do trabalho humano.
Mais recentemente, quando o povo brasileiro foi às ruas protestar pelos mais variados motivos democráticos possíveis, com o foco principal na redução do aumento da tarifa de transporte público em São Paulo, o Governo regulou mais uma situação de mercado, ocasião em que ontem, dia 05 de agosto de 2013, a Presidente da República do Brasil sancionou o Estatuto da Juventude – Lei Federal n. 12.852/2013, que proporciona políticas afirmativas aos jovens, como a meia entrada em eventos culturais e nos transportes coletivos. Isso reflete tanto a intervenção do Estado Brasileiro no domínio econômico, que em regra vigora a livre iniciativa, mas também a preocupação estatal em conceder qualidade de vida para a população brasileira, após o imenso clamor social e visando reduzir as possibilidades de perda de votos nas próximas eleições, frise-se.