06 outubro 2016

Nubladezas

Em dias cada vez mais quentes, a chuva se aponta no infinito e limpo céu azul. Com ela seu cheiro, seu vento, seu acalento. Saio da caixinha em que me escondo para cheirá-la mais uma vez, sentir o gotejar frio e refrescante de seu contato.

As plantas mortas ressuscitam, sem cultos religiosos ou líderes charlatões. Os pássaros cantam com mais vigor, embora molhados pela pouca proteção que as folhas lhes proporcionam.

O trânsito piora, quem saberia dirigir em cidade chuvosa, tendo 350 dias anuais de sol a pico. A energia elétrica também dá sua pausa, como conflitaria com as imponentes árvores plantadas nas calçadas e as indelicadas correntezas de água formadas.

O céu acinzentado traz nostalgia, certezas de que bons ventos estão a soprar, ainda que de outro modo a saudade dos dias e horas mais calorentos aperte o coração.

A crise vem com as nuvens carregadas. Chuva de verão não se confunde com polarização congelante de trevas ininterruptas. O cenário é caótico, pois não se pensa além de si e aquém.

Não é importante dar destinação justa ao lixo produzido, a chuva irá levar para longe.

Não é importante tratar o esgoto gerado, o rio levará minhas fezes e excrementos.

Não é importante que todos comam dignamente, meu salário, ainda que levemente atrasado, cai na conta todo mês.

Não é importante que eu desempenhe meu trabalho para que sou pago, posso interromper a glória alheia.

Não é importante que futuras gerações existam, enfim, se só a minha viver, foda-se a próxima.

E acerca dos temas mais variados estamos amarrados. Não sou eu a encarar tais temas polêmicos, como poderia atirar pedras em outros se o pecado habita em mim. Onde fui predestinado a nascer e viver isso poderia ser motivo de morte, e eu gosto da vida e pretendo exercê-la até enquanto o criador assim quiser.

De fato, se me for permitido e assim eu tiver condições, farei do jeito que entendo certo. Se existe algo neste mundo chamado planeta Terra em que os humanos se similarizam é nisto, cada um faz o que acha certo para si e para os seus.



Nenhum comentário: